23 de jun de 2010

Arquiteturas do Mundo: Cidade da Música Rio de Janeiro







Christian de Portzamparc aceitou o convite para projetar a sede da Orquestra Sinfônica Brasileira como oportunidade de desenvolver um trabalho de grande magnitude e complexidade, em contextos cultural e geográfico que ele conhece de longa data. Casado com a designer carioca Elizabeth, o arquiteto vem constantemente ao Brasil e se confessa admirador de Niemeyer e de outros mestres brasileiros como Reidy. E, inspirado neles, concebeu a Cidade da Música a partir de suas reflexões sobre vazios e cheios, geometria de curvas que se completam, integração com o espaço urbano e quadras abertas.

“Como uma grande varanda”, foi a analogia que Portzamparc usou para o projeto em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo por ocasião da 5a Bienal Internacional de Arquitetura e Design de São Paulo, em setembro de 2003, na qual uma sala especial foi dedicada ao seu trabalho, com destaque para a Cidade da Música. Giles de Bure, autor de livro sobre Portzamparc, define o projeto da Cidade da Música, que sucede em programa seus trabalhos para a Ópera de Nanterre (1983), Conservatório Eric Satie (1981/83), Cidade da Música de La Villette e Conservatório Musical (1984), em Paris, como uma composição musical em concreto, em que curvas, arcos, pilotis, rampas, espaços, se encontram e se separam, formam folhas que se vergam e se apóiam no solo, se desdobram, ameaçam as aberturas, provocam descobertas... com a segurança de que os engenheiros brasileiros, acostumados às audácias de Niemeyer, saberão resolver.

Para Portzampac, um apaixonado pela música, trata-se mais de uma questão de filosofia estética. Explica que na Barra da Tijuca, a inexistência de uma marca, natural ou simbólica, convidava a criar uma presença forte, atraente, um tanto espetacular, mantendo, ao mesmo tempo, uma íntima relação com a cidade.

O terreno na Barra da Tijuca, escolhido pelo arquiteto em comum acordo com a prefeitura do Rio, situa-se no centro de dois grandes eixos de circulação, já definidos por Lucio Costa em sua proposta para a urbanização desse bairro há mais de 30 anos. A partir dos estudos do urbanista brasileiro, Portzamparc irá recuperar para a Cidade da Música e para todo o bairro, o Parque Trevos das Palmeiras, ponto central da região. Localização privilegiada, área generosa, ausências de restrições e limites em relação ao entorno, ofereceram ao arquiteto condições ideais para projetar. A sensibilidade pela música, a dimensão do tempo musical na busca pela espacialidade e pela acústica perfeita levaram à concepção dessa forma, livre na sua essência, simbólica nas referências, surpreendente nas visuais que oferece. Montanhas, mar, manguezal, podem ser observados da altura de dez metros, medida da elevação da primeira laje, como que suspensa no ar.

Entre os planos horizontais do terraço e os da cobertura repousam os volumes cheios – salas fechadas com isolamento acústico – e os vazios abertos à luz, à paisagem, à fruição do público. Vazios e cheios se interpenetram, diz Portzampac.

Filarmônica/Ópera

Um desses volumes é a Grande Sala Filarmônica que se transforma em teatro para ópera. São 800 lugares em configuração filarmônica, com precisão acústica resultante do esquema shoe box, e 1.300 para ópera. Dez torres autônomas projetadas para os camarotes ampliam o número de assentos e criam salas diferentes para os diferentes usos. As quatro torres ao fundo do palco da orquestra podem ser suprimidas; são dotadas de pontes rolantes para serem deslocadas e ordenadas conforme necessidade. Cada torre abriga vários andares escalonados de camarotes dotados de parapeitos baixos e largos, em aço, vidro e veludo para melhor visão do palco.

O fosso da orquestra, por sua vez, pode se elevar em cena quando se trata de concerto; uma parte da platéia ocupará o espaço vazio restante. O teto refletor acústico do palco da orquestra pode ser movido para aumentar o volume do palco. A boca de cena, quando se trata de ópera, funciona como um diafragma, abrindo-se por meio de painéis corrediços e cortina.

Na parte mais baixa da sala, como uma bandeja de formato retangular, estão a orquestra, o coro e a platéia; ao seu redor a circulação, que lembra um promenade. Dela partem as torres de camarotes, dispostas sobre todo o perímetro, para sensação de maior profundidade e amplidão, lembrando praças públicas.

A sala de música de câmera para 500 pessoas, também será dotada de equipamento excepcional. A configuração volumétrica e platéia em forma de anfiteatro permitem que seja utilizada tanto para música clássica acústica, com audição frontal, quanto para espetáculos que necessitam de som amplificado, como os de música popular e jazz. A mudança de uso se faz por meio de disco giratório que inverte as posições do palco e da platéia.

Treze salas de ensaio com tratamento acústico, uma sala de aula de dança, dez para aulas de formação de músicos, três salas de cinema e conferências, lojas, midiateca, restaurante panorâmico e administração e estacionamento com 780 vagas distribuídas no entorno da edificação, complementam esse complexo cultural.

Dados técnicos

A área construída da Cidade da Música terá 90 mil m2.

A estrutura compõe-se, basicamente, de duas lajes paralelas, estruturadas internamente por uma grelha em concreto protendido, medindo 220 m de comprimento por 85 m de largura.

A sala de concertos, chamada Grande Sala, em formato retangular com as torres quebrando o paralelismo em função do som, mede 2.738 m2.

Com as grandes estruturas em concreto armado, as paredes externas das fachadas serão em concreto aparente, com acabamento liso. As rampas serão feitas sobre estrutura de estacas de concreto pré-moldado. A estrutura de concreto e vidro, a dez metros de altura do nível do terreno, terá formas irregulares com paredes de 30 m de altura, em forma de cilindro, cortadas em formas curvas, apoiadas em grandes lajes duplas trapezoidais.

As juntas das paredes serão marcadas a cada dois metros de altura e quatro de comprimento.

Com a terraplanagem já executada, prevê-se a conclusão da obra para o final de 2005.



Christian de Portzamparc tem um percurso surpreendente, pontuado de obras importantes, a maioria na França, seu país de origem, embora tenha nascido em Casablanca, Marrocos, em 1944, onde sua família se refugiara durante a II Guerra Mundial. Estudou arquitetura em Paris, na Escola de Belas Artes e logo se destacou pelo projeto do conjunto de habitação popular Hautes Formes (1978), no qual desenvolveu uma nova dinâmica de lugar, de espaços internos que prolongam o espaço público, conceito que vem aperfeiçoando nos novos trabalhos, aplicado inclusive na sua proposta para recuperação urbana de Santo André, em São Paulo. Com o projeto da Cité de la Musique de La Villette, iniciado em 1984, Portzamparc projetou-se internacionalmente e, em 1994, recebeu o Prêmio Pritzker, consagração máxima de arquitetura. Entre seus trabalhos mais recentes constam o edifício-sede da LouisVuitton, em Nova York, embaixada francesa em Berlim e conjunto de prédios residenciais em Fukoka, no Japão.